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UM DOS PRINCIPAIS HISTORIADORES DO NAZISMO, O INGLÊS IAN KERSHAW MOSTRA COMO HITLER CHEGOU AO PODER E EXPLICA POR QUE O REGIME NÃO PROSPEROU EM OUTROS PAÍSES
O nazismo não nasceu do psiquismo ou de uma característica específica da população alemã
MARTHA ZUBERMARTINE FOURKIEN
Apesar da fama que seus trabalhos sobre o nazismo lhe garantiu na comunidade internacional, Ian Kershaw continua apegado a sua Inglaterra natal.
Ele concedeu a entrevista abaixo na Universidade de Sheffield, onde leciona história contemporânea. Kershaw fala de seus estudos sobre o nazismo com confiança tranquila, revelando conhecimento aprofundado de inúmeras publicações sobre o assunto.
Como esse homem sossegado se tornou um dos maiores especialistas no regime hitlerista? Um pouco por acaso, explica. Duas circunstâncias orientaram sua escolha.
Por um lado, seu interesse nas questões políticas desse período e na história social; por outro, as aulas de alemão que cursou no Instituto Goethe de Manchester.
Em 1972 e 1974, duas estadas na Baviera reforçaram seu interesse pela civilização alemã. Trabalhou no prestigioso Instituto de História do Tempo Presente, em Munique, dirigido pelo historiador alemão Martin Broszat.Dessa época nasceria o livro "Popular Opinion and Political Dissent in the Third Reich" [Opinião Popular e Dissenso Político no Terceiro Reich].
Uma coisa levou a outra, e várias questões começaram a despertar a curiosidade do historiador: como explicar o "sucesso" do nazismo? A população alemã era impregnada de um antissemitismo mais profundo que o antijudaísmo tradicional dos países católicos? Por que, entre todas as economias industriais e capitalistas, a Alemanha foi a única a ter produzido uma ditadura fascista tão extrema?
PERGUNTA - Hitler elaborou uma teoria política ou aproveitou circunstâncias favoráveis para instalar sua ditadura? A quem, de fato, cabe a responsabilidade pelo nazismo?
IAN KERSHAW - Hitler foi alguém que tinha opiniões muito fortes e decididas sobre qualquer assunto. Radicalizava tudo e podia igualmente bem se enfurecer rapidamente ou entusiasmar-se de maneira desmedida.Em Viena, ele era solitário e pouco sociável. Na Primeira Guerra, foi considerado um soldado muito corajoso, mas um pouco excêntrico, que se mantinha à margem dos outros.Mas em 1919, em Munique, ele se deu conta de que podia ser ouvido. Ele diz em dois momentos do livro "Minha Luta": "Então tomei consciência de que eu podia falar". Essa visão muito maniqueísta das coisas se tornou um trunfo formidável quando ele começou a falar com as pessoas nas cervejarias de Munique.Foi essa visão de conjunto, taticamente muito flexível, que lhe permitiu, nos anos 1920 e 1930, adaptar-se aos interesses mais diversos -aqueles das diferentes facções nazistas e os da população alemã.Contudo seria restritivo demais dizer que a responsabilidade pelo nazismo recai sobre um único indivíduo. É verdade que Hitler tem mais responsabilidade que qualquer outra pessoa, mas, à medida que a crise da democracia alemã foi se desenvolvendo, ele foi atraindo mais e mais pessoas.Tampouco podemos dizer que o nazismo tenha nascido do psiquismo ou de uma característica específica da população alemã. Nas eleições de 1932 e 1933, 13 milhões de alemães votaram no partido nazista, número que não representava mais do que um terço dos eleitores. Quando as eleições eram livres, Hitler nunca recebeu mais de um terço dos votos, o que significa que dois terços dos alemães não votaram nos nazistas.O que se pode afirmar é que Hitler conseguiu articular certas tendências da cultura política alemã e atrair mais e mais pessoas. Portanto, a responsabilidade pelo regime nazista cabe, ao mesmo tempo, a Hitler, o homem, e a certos setores da sociedade -mas não à sociedade alemã em sua totalidade.
PERGUNTA - Então o sr. não aprova a tese do americano Daniel J. Goldhagen, que defende que o conjunto da população alemã, fundamentalmente antissemita, foi cúmplice do nazismo e do Holocausto?
KERSHAW - É evidente que havia um antissemitismo profundo na Alemanha muito antes da Primeira Guerra. Talvez mais do que na França, mas não mais que em toda a Europa oriental -na Polônia, Romênia, Hungria, Áustria, onde Hitler nasceu, e, sobretudo, Rússia. Nos anos 1920, porém, esse antissemitismo alemão era sobretudo passivo; o antissemitismo violento -e ativo- era obra de uma pequena minoria.É claro que essa minoria despertou entre 1929 e 1932, e os eleitores que votaram no Partido Nacional Socialista alemão (ou seja, os nazistas) sabiam que estavam votando num partido que odiava os judeus. Mas os estudos que foram feitos sobre o voto nazista nesse período mostram que o antissemitismo não foi a motivação principal desses eleitores.
PERGUNTA - Foi Hitler quem decretou a "solução final"?
KERSHAW - Considerar que Hitler tenha decretado a solução final equivaleria a dizer que essa ditadura funcionava segundo as leis ditadas por ele. Acontece que o que constatamos ao estudar o período dos anos 1930 é, antes, uma forma pragmática de governar.A radicalização do nazismo se deu por etapas até 1941-42, quando a Alemanha já estava em plena guerra contra a União Soviética, visando a erradicar o "bolchevismo judaico".Para os nazistas, judeus e bolcheviques eram a mesma coisa. Desde o primeiro dia da operação Barbarossa (a invasão da União Soviética pelas tropas alemãs), não houve nenhuma ordem explícita de Hitler.É preciso destacar o papel das SS como a organização mais poderosa e mais radical do Estado nazista. Foram elas que, nessa fase, colocaram em prática a divisa de Hitler sobre ser preciso livrar a Alemanha dos judeus.No verão de 1941, na União Soviética invadida pelas tropas alemãs, esse movimento se radicalizou. Os judeus começaram a ser fuzilados às dezenas de milhares. Em setembro, 33 mil judeus foram mortos em dois dias!O que seria feito, então, com os outros judeus da Europa? O extermínio já tinha começado na União Soviética; os chefes nazistas pressionavam Hitler para deportar os judeus austríacos e alemães para o leste, e Hitler deu sinal verde. Em seguida, o mesmo passou a ser feito com os judeus da Europa ocidental (incluindo a França).Os massacres foram o resultado de um processo que se desenrolou por etapas. Hitler tinha uma visão geral das coisas, mas deixava os outros agirem em seu lugar.Não pode haver dúvida quanto a sua responsabilidade nem quanto ao fato de ele ter sido um antissemita fanático. Mas foi o sistema nazista, com sua radicalização progressiva, que levaria ao genocídio dos judeus.
PERGUNTA - Em que Hitler, como o sr. diz em seus trabalhos, foi um líder carismático?
KERSHAW - É preciso entender a palavra "carismático" em seu sentido técnico, e não no sentido usual que assumiu hoje, quando falamos do carisma de um astro da música pop ou até mesmo de John F. Kennedy.Para o sociólogo Max Weber, o carisma significa que uma comunidade se investe em uma pessoa e atribui a ela certo número de qualidades heroicas. O que retiro de Weber é que o indivíduo não necessariamente possui essas qualidades que os outros enxergam nele.No caso de Hitler, por que esse homem que descrevemos como estando à margem da sociedade, ao mesmo tempo excêntrico e tão voluntarista, começa a ser ouvido por certas pessoas?Porque ele responde às aspirações delas.Na sociedade alemã dos anos 1920, as pessoas que nunca tinham ouvido falar em Hitler consideravam que o regime era corrompido pelos políticos, que a Alemanha estava afundando e que ela precisava de um grande líder como Bismarck ou Frederico, o Grande -alguém que pudesse salvar o país dessa terrível crise política e econômica e que permitisse um renascimento nacional.Foi assim que as pessoas começaram a acreditar em Hitler.Para um megalomaníaco como ele, que naquele momento já conquistara muita autoconfiança, o caminho estava traçado: o grande personagem que salvaria a Alemanha era ele.Ele ocupava o ápice de um sistema, tendo por missão alcançar certos objetivos.Mas, por trás disso, era submetido a pressões de diferentes facções -entre as quais é preciso destacar o papel poderoso do Exército, que até 1938 teve exatamente os mesmos objetivos de expansão militar que Hitler, embora a maioria dos oficiais não fosse nazista.Durante muito tempo, os objetivos dos nazistas mais ou menos coincidiram com os de grande número de nacionalistas alemães que faziam parte das elites tradicionais do país. Podemos afirmar que as Forças Armadas, os grandes empresários, os grandes proprietários de terras e os altos funcionários apoiaram Hitler durante muito tempo, até que foi tarde demais e se viram presos numa armadilha, dentro do culto a esse líder carismático.
PERGUNTA - Um modelo como esse poderia funcionar em outro país?
KERSHAW - É preciso levar em conta que uma das causas muito importantes para a ascensão do nazismo foi a crise profunda que atingiu a Alemanha nos anos 1930.A particularidade dessa crise é que ela foi multiforme: crise do sistema político e governamental, crise econômica, social e ideológica, tudo isso associado a um sentimento de humilhação nacional devido à derrota na Primeira Guerra.A Alemanha era um país em que a democracia tinha raízes frágeis, e o sistema político instalado após a guerra (a República de Weimar) nunca chegou a ser verdadeiramente aceito, nem por grande parte da população, nem pelas elites.Quando chegou a depressão mundial, em 1929, todo o sistema que passou a ser questionado, e não apenas certos setores. Na Grã-Bretanha, por exemplo, de 1929 a 1931, houve uma crise econômica e política, mas não uma crise de Estado. Com a exceção de uma pequena minoria muito radical, ninguém cogitava em questionar o rei ou o Parlamento. O sistema era suficientemente estável para fazer frente a uma crise.Na França, os governos da Terceira República (1870-1940) foram muito frágeis. Mas a França estava no campo dos vencedores (de 1914-18) e não passava por uma crise de amplitude igual à dos países em que o fascismo se instalou.Na Alemanha, a necessidade de uma regeneração nacional era uma mensagem muito forte da qual Hitler era o portador.Alguns imaginaram que ele não permaneceria no poder por muito tempo, mas, sob o Terceiro Reich, a economia começou a crescer novamente, o Exército foi reconstituído, a Alemanha recuperou territórios que havia perdido.Os ingleses e os franceses se mostraram muito fracos diante de Hitler, que foi se fortalecendo mais e mais. Diante disso, os alemães que hesitavam ou que não gostavam de Hitler se uniram à sua volta. E a dinâmica carismática funcionava cada vez melhor.Quando a guerra chegou, já era tarde para recuar -a ditadura já estava bem instalada por um processo progressivo de radicalização. O mito só desabou com a derrota, quando o sistema se audodestruiu depois de ter exterminado mais de 5 milhões de judeus.
A íntegra desta entrevista saiu na revista francesa "Sciences Humaines". Tradução de Clara Allain.
Leia mais sobre o debate em torno do nazismo, que divide os historiadores em "intencionalistas" e "funcionalistas", em www.folha.com.br/091331
domingo, 17 de maio de 2009
terça-feira, 12 de maio de 2009
Mais um aviso
Oi pessoas.
Em função da dificuldade de definir um bom texto para as discussões sobre ciência e tecnologia, vamos modificar um pouco a ordem do nosso cronograma e programa. Por isso, o grupo 5, de comunicação, redes e globalização, passa a ser grupo 4 e ciência e tecnologia passa a ser grupo 5, ok? Isso vale para as duas turmas, de segunda e sexta.
O texto sobre comunicação, redes e globalização já está na xerox. Trata-se de um capítulo do livro do professor Milton Santos, Por uma outra globalização. O nome do capítulo é: A globalização perversa.
Enquanto isso, fico no garimpo para escolher um bom texto para ciência e tecnologia.
Um abraço, Leandro
Em função da dificuldade de definir um bom texto para as discussões sobre ciência e tecnologia, vamos modificar um pouco a ordem do nosso cronograma e programa. Por isso, o grupo 5, de comunicação, redes e globalização, passa a ser grupo 4 e ciência e tecnologia passa a ser grupo 5, ok? Isso vale para as duas turmas, de segunda e sexta.
O texto sobre comunicação, redes e globalização já está na xerox. Trata-se de um capítulo do livro do professor Milton Santos, Por uma outra globalização. O nome do capítulo é: A globalização perversa.
Enquanto isso, fico no garimpo para escolher um bom texto para ciência e tecnologia.
Um abraço, Leandro
segunda-feira, 11 de maio de 2009
Seleção de estudantes
A assessoria de comunicação do IHAC seleciona estudantes que desejam atuar como bolsistas voluntários. Serão selecionados cinco discentes do IHAC, que deverão trabalhar na assessoria por oito horas semanais. A carga horária será creditada como Atividade Complementar dos voluntários.
Para participar da seleção, os interessados devem se dirigir à secretaria do IHAC, de 11 (segunda) a 15 de maio (sexta) e preencher a ficha de inscrição. A assessoria é coordenada pelo professor Leandro Colling e pela professora Karla Brunet.
O projeto da assessoria de imprensa foi aprovado na última reunião da Congregação Ampliada do IHAC, realizada no dia 5 de maio. A assessoria de comunicação tem os seguintes objetivos:
divulgar as atividades do IHAC (direção, funcionários, docentes e discentes) para os diversos públicos (internos e externos) através de veículos de comunicação existentes em Salvador ou, eventualmente, de outras cidades baianas ou de outros estados brasileiros;
divulgar as atividades da instituição através de publicações dirigidas e/ou redes específicas de informação;
criar e manter uma boa imagem do IHAC junto à comunidade da UFBA e junto à sociedade em geral;
tornar os integrantes do IHAC, em especial a direção e os pesquisadores, fontes de informação procuradas e respeitadas por jornalistas dos mais diversos veículos de comunicação.
Mais informações podem ser obtidas pelo e-mail colling@oi.com.br.
Para participar da seleção, os interessados devem se dirigir à secretaria do IHAC, de 11 (segunda) a 15 de maio (sexta) e preencher a ficha de inscrição. A assessoria é coordenada pelo professor Leandro Colling e pela professora Karla Brunet.
O projeto da assessoria de imprensa foi aprovado na última reunião da Congregação Ampliada do IHAC, realizada no dia 5 de maio. A assessoria de comunicação tem os seguintes objetivos:
divulgar as atividades do IHAC (direção, funcionários, docentes e discentes) para os diversos públicos (internos e externos) através de veículos de comunicação existentes em Salvador ou, eventualmente, de outras cidades baianas ou de outros estados brasileiros;
divulgar as atividades da instituição através de publicações dirigidas e/ou redes específicas de informação;
criar e manter uma boa imagem do IHAC junto à comunidade da UFBA e junto à sociedade em geral;
tornar os integrantes do IHAC, em especial a direção e os pesquisadores, fontes de informação procuradas e respeitadas por jornalistas dos mais diversos veículos de comunicação.
Mais informações podem ser obtidas pelo e-mail colling@oi.com.br.
domingo, 10 de maio de 2009
Entrevista sobre corpo, na FSP de hoje
MARTINE FOURNIER
Um dos grandes especialistas no corpo e em suas representações, o sociólogo francês Georges Vigarello fala, na entrevista abaixo, sobre temas como a evolução no tratamento da criança.Ele mostra também que a obsessão pelo corpo não é uma exclusividade dos tempos atuais.
PERGUNTA - O senhor mostra em "Le Corps Redressé" [O Corpo Reerguido] que, desde a Idade Média, educadores e pedagogos são obcecados pelo corpo reto... GEORGES VIGARELLO - Entre as normas relativas ao corpo, há uma muito importante, que é a exigência de uma postura reta. É claro que reencontramos essa exigência hoje.Mas muitas coisas mudaram desde o Renascimento, não somente na representação da retidão, mas sobretudo na maneira de obtê-la. Dito de outro modo, o corpo está no centro de uma relação pedagógica que evoluiu ao longo da história.Na Idade Média, esse objetivo já existia: por exemplo, recomendava-se ao jovem que não apoiasse os cotovelos na mesa ou, ainda, lhe diziam: "Não enfie a cabeça nos ombros, ou você poderá parecer um hipócrita. Não balance a cabeça de um lado para o outro, pois parece indeciso...".Na verdade, as posições do corpo são moralizadas. Nos séculos 16 e 17, a mão do mestre ou do educador é muito importante: é ela que se coloca sobre o corpo da criança para corrigi-lo.Encontramos exemplos nas "Mémoires de Mme. de Maintenon" (Memórias de Madame de Maintenon), que explica como sua doméstica apoiava a mão na barriga de sua ama para empurrá-la para trás, puxar seus ombros etc.Progressivamente, no século 17, a mão corretora vai encontrar um substituto nas malhas e corpetes que fazem as mulheres e crianças usarem. A profissão de fabricantes de corpetes foi criada nessa época.O corpete não era somente usado no caso de más-formações (o que era frequente), mas também cada vez mais de modo preventivo pelas crianças da aristocracia e da alta burguesia. Pode-se vê-lo em várias gravuras: o corpo da criança era sustentado no nível do peito por um peitoral e, no do pescoço, por um colarinho rígido.A educação do corpo consistia em uma restrição imposta. Essa prática irá perdurar ao longo de todo o século 18, embora ocorra então uma mudança essencial em termos de representação do corpo, e não somente no campo médico.
PERGUNTA - Quais são as mudanças que surgem no século 18? VIGARELLO - Surgem críticas muito severas a essas práticas corporais educativas. Entre as inúmeras vozes que se exprimem sobre a questão, Jean-Jacques Rousseau é o representante mais eloquente, especialmente no "Emílio" (1762).Essas críticas denunciam primeiramente o fato de que a criança sofre, sem nenhuma reação possível, o que lhe é imposto pelo adulto (vemos bem a ideia que surge: "É preciso libertar a criança").A segunda ideia subjacente é de que a criança tem força suficiente para poder dispensar o corpete: aparece assim a ideia do papel que podem ter os músculos na sustentação do corpo.Pois no século 18 começa a haver interesse por outro componente do corpo: a fibra, que constitui as redes nervosas e musculares, isto é, de toda uma atividade tensional. Vai-se então submeter a criança a exercícios físicos que a cansam, fazê-la andar descalça, obrigá-la a trabalhar de pé -inventam-se mesas com roldanas...De maneira mais geral, começa-se a conceber uma autonomia possível da criança: autonomia física, sem dúvida (resistência ao trabalho, ao cansaço, ao frio), mas também uma autonomia mais ampla. Estamos na época do Iluminismo, do nascimento de uma espécie de individualismo, mas também do respeito pelo indivíduo: tanto pelos adultos quanto pelas crianças, que são futuros adultos.É o início de uma inversão na relação pedagógica que virá no século 20.
PERGUNTA - Em que o século 19 revoluciona a pedagogia do corpo? VIGARELLO - O século 19 constitui uma ruptura absoluta, cuja importância ainda não mensuramos. Nas concepções médicas e higienistas da época, o músculo e o pulmão são objetos de todas as atenções.Mais concretamente, o século 19 inventa a ginástica. O princípio totalmente novo é o de que exercícios mecânicos seriam capazes de melhorar as forças e a eficácia do corpo. Manuais apresentam séries de exercícios numerados.A ambição é transformar o corpo para aperfeiçoar os músculos e os gestos, fazendo-o trabalhar em tipos de práticas mecanizadas e numeradas.O século 19, sobretudo em sua segunda metade, nos faz entrar em um espaço metrificado. Na fábrica ou na oficina, toda uma economia dos gestos começa a ser pensada, de modo que o trabalho do operário seja realmente rentável.Michel Foucault mostrou bem isso, tomando o exemplo da rentabilidade dos gestos no Exército. Há uma pesquisa da eficácia do corpo...É nesse quadro que nasce a ginástica escolar: todas as crianças efetuam ao mesmo tempo e no mesmo ritmo um certo tipo de movimento. Inventam-se as salas de ginástica e máquinas (manivelas, polias, roldanas, escadas) para obrigar o corpo a trabalhar.São os ancestrais de nossas academias de musculação... A concepção do mobiliário escolar também corresponde a esse tipo de inquietação diante do corpo. Números muito precisos indicam a distância entre o peito e a borda da mesa, a distância entre a altura do assento e a da carteira...
PERGUNTA - Na França, no fim do século 19, há conflito entre os defensores da ginástica e os defensores do esporte? VIGARELLO - O tempo parece produzir libertações em cascata. O corpo da criança em Rousseau é libertado em relação àquele que se trancava nas malhas e nos corpetes.O corpo da ginástica dá mais autonomia e disponibilidade à criança, enquanto o mantém nas formas de rigidez com exercícios precisos e forçados.Mas os anos 1880 veem surgir críticas extremamente severas e acirradas em relação à ginástica, considerada autoritária demais ou suscetível de promover uma cultura excessivamente militar...O esporte (corrida, ciclismo, canoagem...), cuja prática vem da Inglaterra, aparece nesse momento e é visto pelos que o praticam como uma verdadeira libertação.Nesses primeiros tempos não há uma orientação necessariamente higienista ou moral, como é o caso da ginástica.
PERGUNTA - Como o nascimento da psicologia irá operar uma nova ruptura na relação com o corpo? VIGARELLO - Os primeiros psicólogos começam a falar em sensações internas... Nos anos 1920, Jean Piaget falou em inteligência sensorial e motora e colocou em evidência o fenômeno da interiorização da motricidade.Mas é apenas a partir da segunda metade do século 20 que a psicologia irá influenciar as práticas, e mais precisamente nos anos 1960. O corpo não é mais concebido como uma simples mecânica, mas como portador de mensagens, de informações, de sensações vividas...Pede-se então ao sujeito que preste atenção no que ele percebe: não estamos mais na eficácia, mas sobretudo na afeição. A perspectiva é invertida, leva-se o sujeito a escutar a si mesmo.Outra mudança fundamental: não é mais uma norma abstrata, coletiva e genérica imposta de fora que predomina, mas a norma que cada um define para si mesmo.Então tomamos consciência de que existem várias maneiras de ser reto, de se portar, e que certas retidões correspondentes a normas individuais podem ser tão elegantes quanto outras...Estamos diante de um novo tipo de libertação. O pedagogo não é mais aquele que prescreve de maneira autoritária e inteligível, mas o que ajuda na percepção de cada um.Tomemos um exemplo sintomático: um esportista hoje pode dizer que "perdeu suas sensações"; isso era inimaginável nos anos 1930, quando ele devia simplesmente fazer o que lhe diziam! O corpo tornou-se o suporte de nossa identidade.Daí expressões cada vez mais individualizadas (o piercing ou a tatuagem, por exemplo) ou, ainda, as buscas de "reencontros" com o corpo (das quais a talassoterapia é um exemplo), como se esses reencontros nos permitissem ser realmente o que somos...Certas práticas, como as maratonas, esportes radicais ou outras práticas arriscadas, ou ainda as festas rave, com seus consumos e transes múltiplos, constituem uma maneira de explorar o corpo além de seus limites: a ausência de limitação do corpo toma o lugar das antigas transcendências.
Quem é
Professor na Universidade de Paris 5 e diretor de pesquisa da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais (Paris), Georges Vigarello é, atualmente, autor de obras como "História do Estupro" (Zahar) e "História da Beleza" (Ediouro).Neste último, ele analisa os conceitos de beleza do Renascimento até os dias atuais, mostrando suas transformações.Em tom acessível, Vigarello aborda também os diferentes ideais de perfeição, a adoção dos cosméticos, as práticas dos perfumistas e a arte do penteado, entre outros temas.
Um dos grandes especialistas no corpo e em suas representações, o sociólogo francês Georges Vigarello fala, na entrevista abaixo, sobre temas como a evolução no tratamento da criança.Ele mostra também que a obsessão pelo corpo não é uma exclusividade dos tempos atuais.
PERGUNTA - O senhor mostra em "Le Corps Redressé" [O Corpo Reerguido] que, desde a Idade Média, educadores e pedagogos são obcecados pelo corpo reto... GEORGES VIGARELLO - Entre as normas relativas ao corpo, há uma muito importante, que é a exigência de uma postura reta. É claro que reencontramos essa exigência hoje.Mas muitas coisas mudaram desde o Renascimento, não somente na representação da retidão, mas sobretudo na maneira de obtê-la. Dito de outro modo, o corpo está no centro de uma relação pedagógica que evoluiu ao longo da história.Na Idade Média, esse objetivo já existia: por exemplo, recomendava-se ao jovem que não apoiasse os cotovelos na mesa ou, ainda, lhe diziam: "Não enfie a cabeça nos ombros, ou você poderá parecer um hipócrita. Não balance a cabeça de um lado para o outro, pois parece indeciso...".Na verdade, as posições do corpo são moralizadas. Nos séculos 16 e 17, a mão do mestre ou do educador é muito importante: é ela que se coloca sobre o corpo da criança para corrigi-lo.Encontramos exemplos nas "Mémoires de Mme. de Maintenon" (Memórias de Madame de Maintenon), que explica como sua doméstica apoiava a mão na barriga de sua ama para empurrá-la para trás, puxar seus ombros etc.Progressivamente, no século 17, a mão corretora vai encontrar um substituto nas malhas e corpetes que fazem as mulheres e crianças usarem. A profissão de fabricantes de corpetes foi criada nessa época.O corpete não era somente usado no caso de más-formações (o que era frequente), mas também cada vez mais de modo preventivo pelas crianças da aristocracia e da alta burguesia. Pode-se vê-lo em várias gravuras: o corpo da criança era sustentado no nível do peito por um peitoral e, no do pescoço, por um colarinho rígido.A educação do corpo consistia em uma restrição imposta. Essa prática irá perdurar ao longo de todo o século 18, embora ocorra então uma mudança essencial em termos de representação do corpo, e não somente no campo médico.
PERGUNTA - Quais são as mudanças que surgem no século 18? VIGARELLO - Surgem críticas muito severas a essas práticas corporais educativas. Entre as inúmeras vozes que se exprimem sobre a questão, Jean-Jacques Rousseau é o representante mais eloquente, especialmente no "Emílio" (1762).Essas críticas denunciam primeiramente o fato de que a criança sofre, sem nenhuma reação possível, o que lhe é imposto pelo adulto (vemos bem a ideia que surge: "É preciso libertar a criança").A segunda ideia subjacente é de que a criança tem força suficiente para poder dispensar o corpete: aparece assim a ideia do papel que podem ter os músculos na sustentação do corpo.Pois no século 18 começa a haver interesse por outro componente do corpo: a fibra, que constitui as redes nervosas e musculares, isto é, de toda uma atividade tensional. Vai-se então submeter a criança a exercícios físicos que a cansam, fazê-la andar descalça, obrigá-la a trabalhar de pé -inventam-se mesas com roldanas...De maneira mais geral, começa-se a conceber uma autonomia possível da criança: autonomia física, sem dúvida (resistência ao trabalho, ao cansaço, ao frio), mas também uma autonomia mais ampla. Estamos na época do Iluminismo, do nascimento de uma espécie de individualismo, mas também do respeito pelo indivíduo: tanto pelos adultos quanto pelas crianças, que são futuros adultos.É o início de uma inversão na relação pedagógica que virá no século 20.
PERGUNTA - Em que o século 19 revoluciona a pedagogia do corpo? VIGARELLO - O século 19 constitui uma ruptura absoluta, cuja importância ainda não mensuramos. Nas concepções médicas e higienistas da época, o músculo e o pulmão são objetos de todas as atenções.Mais concretamente, o século 19 inventa a ginástica. O princípio totalmente novo é o de que exercícios mecânicos seriam capazes de melhorar as forças e a eficácia do corpo. Manuais apresentam séries de exercícios numerados.A ambição é transformar o corpo para aperfeiçoar os músculos e os gestos, fazendo-o trabalhar em tipos de práticas mecanizadas e numeradas.O século 19, sobretudo em sua segunda metade, nos faz entrar em um espaço metrificado. Na fábrica ou na oficina, toda uma economia dos gestos começa a ser pensada, de modo que o trabalho do operário seja realmente rentável.Michel Foucault mostrou bem isso, tomando o exemplo da rentabilidade dos gestos no Exército. Há uma pesquisa da eficácia do corpo...É nesse quadro que nasce a ginástica escolar: todas as crianças efetuam ao mesmo tempo e no mesmo ritmo um certo tipo de movimento. Inventam-se as salas de ginástica e máquinas (manivelas, polias, roldanas, escadas) para obrigar o corpo a trabalhar.São os ancestrais de nossas academias de musculação... A concepção do mobiliário escolar também corresponde a esse tipo de inquietação diante do corpo. Números muito precisos indicam a distância entre o peito e a borda da mesa, a distância entre a altura do assento e a da carteira...
PERGUNTA - Na França, no fim do século 19, há conflito entre os defensores da ginástica e os defensores do esporte? VIGARELLO - O tempo parece produzir libertações em cascata. O corpo da criança em Rousseau é libertado em relação àquele que se trancava nas malhas e nos corpetes.O corpo da ginástica dá mais autonomia e disponibilidade à criança, enquanto o mantém nas formas de rigidez com exercícios precisos e forçados.Mas os anos 1880 veem surgir críticas extremamente severas e acirradas em relação à ginástica, considerada autoritária demais ou suscetível de promover uma cultura excessivamente militar...O esporte (corrida, ciclismo, canoagem...), cuja prática vem da Inglaterra, aparece nesse momento e é visto pelos que o praticam como uma verdadeira libertação.Nesses primeiros tempos não há uma orientação necessariamente higienista ou moral, como é o caso da ginástica.
PERGUNTA - Como o nascimento da psicologia irá operar uma nova ruptura na relação com o corpo? VIGARELLO - Os primeiros psicólogos começam a falar em sensações internas... Nos anos 1920, Jean Piaget falou em inteligência sensorial e motora e colocou em evidência o fenômeno da interiorização da motricidade.Mas é apenas a partir da segunda metade do século 20 que a psicologia irá influenciar as práticas, e mais precisamente nos anos 1960. O corpo não é mais concebido como uma simples mecânica, mas como portador de mensagens, de informações, de sensações vividas...Pede-se então ao sujeito que preste atenção no que ele percebe: não estamos mais na eficácia, mas sobretudo na afeição. A perspectiva é invertida, leva-se o sujeito a escutar a si mesmo.Outra mudança fundamental: não é mais uma norma abstrata, coletiva e genérica imposta de fora que predomina, mas a norma que cada um define para si mesmo.Então tomamos consciência de que existem várias maneiras de ser reto, de se portar, e que certas retidões correspondentes a normas individuais podem ser tão elegantes quanto outras...Estamos diante de um novo tipo de libertação. O pedagogo não é mais aquele que prescreve de maneira autoritária e inteligível, mas o que ajuda na percepção de cada um.Tomemos um exemplo sintomático: um esportista hoje pode dizer que "perdeu suas sensações"; isso era inimaginável nos anos 1930, quando ele devia simplesmente fazer o que lhe diziam! O corpo tornou-se o suporte de nossa identidade.Daí expressões cada vez mais individualizadas (o piercing ou a tatuagem, por exemplo) ou, ainda, as buscas de "reencontros" com o corpo (das quais a talassoterapia é um exemplo), como se esses reencontros nos permitissem ser realmente o que somos...Certas práticas, como as maratonas, esportes radicais ou outras práticas arriscadas, ou ainda as festas rave, com seus consumos e transes múltiplos, constituem uma maneira de explorar o corpo além de seus limites: a ausência de limitação do corpo toma o lugar das antigas transcendências.
Quem é
Professor na Universidade de Paris 5 e diretor de pesquisa da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais (Paris), Georges Vigarello é, atualmente, autor de obras como "História do Estupro" (Zahar) e "História da Beleza" (Ediouro).Neste último, ele analisa os conceitos de beleza do Renascimento até os dias atuais, mostrando suas transformações.Em tom acessível, Vigarello aborda também os diferentes ideais de perfeição, a adoção dos cosméticos, as práticas dos perfumistas e a arte do penteado, entre outros temas.
quarta-feira, 6 de maio de 2009
Aviso importante
Pessoas queridas.
Na aula da última segunda, eu prometi que deixaria hoje (quarta), na xerox, o texto obrigatório do módulo 4, de ciência e tecnologia. Novamente não vou poder cumprir minha promessa. Mas saibam que não é por descuido ou culpa minha.
A professora Elaine Norberto, do IHAC, e que também ministra o mesmo CC para outras turmas, sugeriu um trecho da tese de doutorado dela para as nossas discussões. Ocorre que a tese dela foi escrita em francês e ela está traduzindo o tal trecho. Ela se comprometeu a me mandar o trecho até domingo de noite, dia 10 de maio. Imediatamente, postarei o texto no blog. Na nossa próxima aula, discutimos se, por causa desse atraso, precisaremos reorganizar nosso calendário, o que é perfeitamente possível, ok?
Lembro a todos que na nossa próxima aula de segunda, dia 11, voltaremos a discutir os textos de Dejours e iniciarei a discussão do texto de Baumann. Os dois textos já estão na xerox da Facom há um bom tempo.
Um abraço, Leandro
Na aula da última segunda, eu prometi que deixaria hoje (quarta), na xerox, o texto obrigatório do módulo 4, de ciência e tecnologia. Novamente não vou poder cumprir minha promessa. Mas saibam que não é por descuido ou culpa minha.
A professora Elaine Norberto, do IHAC, e que também ministra o mesmo CC para outras turmas, sugeriu um trecho da tese de doutorado dela para as nossas discussões. Ocorre que a tese dela foi escrita em francês e ela está traduzindo o tal trecho. Ela se comprometeu a me mandar o trecho até domingo de noite, dia 10 de maio. Imediatamente, postarei o texto no blog. Na nossa próxima aula, discutimos se, por causa desse atraso, precisaremos reorganizar nosso calendário, o que é perfeitamente possível, ok?
Lembro a todos que na nossa próxima aula de segunda, dia 11, voltaremos a discutir os textos de Dejours e iniciarei a discussão do texto de Baumann. Os dois textos já estão na xerox da Facom há um bom tempo.
Um abraço, Leandro
terça-feira, 28 de abril de 2009
Texto de Rubens Alves na FSP de hoje
RETORNO AO PAÍS de Lagado, país das universidades que Gulliver visitou numa de suas viagens. Estávamos nos familiarizando com uma hipótese levantada pelos cientistas do Departamento de Linguística quando o feriado interrompeu nossa excursão.
Pois os linguistas de Lagado afirmavam que as palavras, que o senso comum acredita serem meios de comunicação, na verdade são razão de todo o tipo de desentendimento. Na Torre de Babel não faltavam palavras. E, a despeito delas, veio a confusão...Propunham então os cientistas da linguagem que as palavras fossem eliminadas. Palavras são "sinais" cuja função é representar as coisas. E é precisamente nesse ponto que o desentendimento acontece: quando as palavras, "sinais" para representar coisas, não as representam. Então, se eliminarmos as palavras para representar as coisas e passarmos a usar, no seu lugar, as próprias coisas, não haverá possibilidade de desentendimentos.
As ideias não caem do céu. Alguma situação provoca o seu aparecimento. Qual foi a situação que fez com que eu me lembrasse da hipótese dos linguistas de Lagado?
Foi um lamentável desentendimento que sacudiu o mundo: o papa falou, usou palavras. Justamente ele, infalível representante de Cristo que só fala aquilo que o Espírito Santo segreda aos seus ouvidos, ele, grande mestre desse fascinante "jogo de contas de vidro" que se chama "teologia" e que, colocando a modéstia de lado, eu mesmo jogo com razoável habilidade... Pois ele usou uma única palavra e estabeleceu-se o pandemônio. Ele usou a palavra "camisinha"...
No jogo da ciência e do senso comum, quando se usa a palavra "camisinha" entende-se um artefato técnico que serve para controlar a natalidade e também para impedir doenças, a Aids em especial. A palavra "camisinha", assim, numa linguagem matemática, pertence ao "conjunto" de coisas práticas, tais como aspirinas, ataduras, desinfetantes, sabonetes, bicicletas, cortadores de unha e computadores. São objetos que se usa por aquilo que podem fazer. Simples ferramentas: não são virtudes, não são pecados.
Aí é que está o nó. Porque, no jogo linguístico da Igreja Católica, a palavra "camisinha" é carta de baralho diabólica. Só pode ser pronunciada como uma maldição. Ela, a camisinha de aparência inocente, é mais letal que a Aids -a enfermidade que pode matar o corpo. A camisinha é o pecado que pode matar a alma.
E foi assim que o "magister ludi", S.S. Bento 16, fiel às regras do jogo da teologia católica, declarou em Iaundé (Camarões) que a distribuição de camisinhas não ajuda, "pelo contrário, as camisinhas aumentam o problema (da Aids)".
A declaração universal do papa na África, continente onde mais de 20 milhões de pessoas estão infectadas com o vírus da Aids, revela a transcendental importância que a camisinha ocupa no pensamento católico oficial, como lugar estratégico na luta que se trava entre Deus e o Diabo.
Ah! Como a igreja mudou! Outras são as palavras que se usam! O amado e saudoso papa João 23 será lembrado como o papa que falava as palavras do ecumenismo, da fraternidade, da justiça social. Mas quais serão as palavras que evocarão a imagem de S.S. Bento 16? Espero que não seja aquela... Os católicos se envergonhariam...
Pois os linguistas de Lagado afirmavam que as palavras, que o senso comum acredita serem meios de comunicação, na verdade são razão de todo o tipo de desentendimento. Na Torre de Babel não faltavam palavras. E, a despeito delas, veio a confusão...Propunham então os cientistas da linguagem que as palavras fossem eliminadas. Palavras são "sinais" cuja função é representar as coisas. E é precisamente nesse ponto que o desentendimento acontece: quando as palavras, "sinais" para representar coisas, não as representam. Então, se eliminarmos as palavras para representar as coisas e passarmos a usar, no seu lugar, as próprias coisas, não haverá possibilidade de desentendimentos.
As ideias não caem do céu. Alguma situação provoca o seu aparecimento. Qual foi a situação que fez com que eu me lembrasse da hipótese dos linguistas de Lagado?
Foi um lamentável desentendimento que sacudiu o mundo: o papa falou, usou palavras. Justamente ele, infalível representante de Cristo que só fala aquilo que o Espírito Santo segreda aos seus ouvidos, ele, grande mestre desse fascinante "jogo de contas de vidro" que se chama "teologia" e que, colocando a modéstia de lado, eu mesmo jogo com razoável habilidade... Pois ele usou uma única palavra e estabeleceu-se o pandemônio. Ele usou a palavra "camisinha"...
No jogo da ciência e do senso comum, quando se usa a palavra "camisinha" entende-se um artefato técnico que serve para controlar a natalidade e também para impedir doenças, a Aids em especial. A palavra "camisinha", assim, numa linguagem matemática, pertence ao "conjunto" de coisas práticas, tais como aspirinas, ataduras, desinfetantes, sabonetes, bicicletas, cortadores de unha e computadores. São objetos que se usa por aquilo que podem fazer. Simples ferramentas: não são virtudes, não são pecados.
Aí é que está o nó. Porque, no jogo linguístico da Igreja Católica, a palavra "camisinha" é carta de baralho diabólica. Só pode ser pronunciada como uma maldição. Ela, a camisinha de aparência inocente, é mais letal que a Aids -a enfermidade que pode matar o corpo. A camisinha é o pecado que pode matar a alma.
E foi assim que o "magister ludi", S.S. Bento 16, fiel às regras do jogo da teologia católica, declarou em Iaundé (Camarões) que a distribuição de camisinhas não ajuda, "pelo contrário, as camisinhas aumentam o problema (da Aids)".
A declaração universal do papa na África, continente onde mais de 20 milhões de pessoas estão infectadas com o vírus da Aids, revela a transcendental importância que a camisinha ocupa no pensamento católico oficial, como lugar estratégico na luta que se trava entre Deus e o Diabo.
Ah! Como a igreja mudou! Outras são as palavras que se usam! O amado e saudoso papa João 23 será lembrado como o papa que falava as palavras do ecumenismo, da fraternidade, da justiça social. Mas quais serão as palavras que evocarão a imagem de S.S. Bento 16? Espero que não seja aquela... Os católicos se envergonhariam...
sábado, 25 de abril de 2009
Texto Risério
Texto de Antonio Risério publicado no A Tarde de hoje. Lembrei do final de nossa aula de sexta.
Respondo à consulta de um leitor: que influência os africanos tiveram no desenho de nossas edificações e cidades? A resposta é: nenhuma. Os escravos que a África vendia para o Brasil traziam consigo seu repertório genético, suas línguas, seus deuses, visõesde-mundo, conhecimentos e técnicas.Mas, se foram fundamentais para a constituição biológica e para a formação estética e religiosa da sociedade brasileira, não é significativamente visível qualquer influência deles na dimensão urbanística e arquitetônica do país. Nos planos de nossas cidades, nos desenhos de seus bairros, na definição de um tipo de moradia.Günter Weimer acredita divisar tal influxo africano na configuração de Salvador.Acha que, enquanto “as ruas principais passaram pelo topo das colinas e eram reservadas aos senhores brancos”, as encostas da cidade se encheram de negros, que ali “puderam fazer efusiva aplicação do traçado das cidades africanas”. A tese não se sustenta. Os negros não ficaram concentrados nas encostas do sítio urbano. Distribuíram-se por toda a cidade.Pelos vales e pelas colinas, inclusive. E, nas encostas que desciam para o mar, viviam, também, pessoas de posses.Nos calundus dos séculos XVII e XVIII, temos um culto de origem africana – embora já sincretizado com elementos lusos e indígenas. Mas, no espaço físico em que o culto se realizava, não encontramos a forma de um templo que nos leve a criações arquitetônicas da África Negra. O que se vê é a “casa brasileira”. Tome-se o exemplo do calundu encontrado em Porto Seguro, em 1646. O rito acontecia à noite, na casa de Domingos Umbata. E nada indica que a casa tivesse qualquer traço físico incomum.Que a linguagem de sua edificação a distinguisse na paisagem arquitetural da vila. E o mesmo se pode dizer dos calundus de Branca, que a Inquisição flagrou na Vila do Rio Real, na Bahia, e de Luzia Pinta, que funcionava em Sabará, Minas Gerais, no século XVIII.O calundu acontecia numa casa corriqueira de feição popular. O que havia de africano não estava em sua construção, mas no ritual. Não se manifestava na materialidade arquitetônica, mas em dimensão simbólica. E isto vale para os terreiros de candomblé. Muniz Sodré acha que muito da organização dos palácios iorubanos foi incorporada na constituição do Axé do Opô Afonjá. Simbólica e ideologicamente, sim. Arquitetonicamente, não.Não há qualquer africanidade nítida, mas explícito lusitanismo tropicalizado, na casa de Xangô que sedia o terreiro. Basta comparar aquela casa com o santuário de Oxum, em Oxogbô. Umaltar em meio às árvores, uma forma orgânica que nada tem de parecido a uma casa portuguesa, sugerindo, antes, o sexo feminino. Um templovulva.E há um “detalhe”. Renato da Silveira chamou minha atenção. A Constituição Política do Império do Brasil, jurada em 1824, reza: “A Religião Católica Apostólica Romana continuará a ser a Religião do Império. Todas as outras Religiões serão permitidas com seu culto doméstico, ou particular, em casas para isso determinadas, sem forma alguma exterior de Templo”. Temos aí uma permissão e uma proibição. A permissão se dá na dimensão simbólico-ideológica: permite-se a existência de religiões que não a católica.A proibição incide sobre a expressão física dessas religiões, em termos de seus locais de encontro e rito. Não se pode ter forma alguma exterior de templo. É uma proibição arquitetônica.Os quilombos poderiam ter sido o espaço para a materialização de um urbanismo e de uma arquitetura de extração africana. Mas os arraiais de Palmares foram lusitanos. Os maiores chegaram a ter até quatro ruas, com as casas, cobertas de palma, alinhando-se lado a lado.No largo principal, no centro do povoado, ficavam os prédios do poder. A sede política do mandachuva local e a capela ou igreja. Sim: igreja, com imagens do Menino Jesus, de Nossa Senhora da Conceição e São Brás. No filme Quilombo, de Cacá Diegues, os palmarinos cultuam orixás. Não faz sentido. Os orixás são uma criação iorubana. E, na época de Palmares, ainda não havia iorubás por aqui. Eles só começaram a chegar depois, lá pelo final do século XVIII. Antes disso, a religião católica já se achava implantada em Angola, terra de origem dos negros de Palmares.
Respondo à consulta de um leitor: que influência os africanos tiveram no desenho de nossas edificações e cidades? A resposta é: nenhuma. Os escravos que a África vendia para o Brasil traziam consigo seu repertório genético, suas línguas, seus deuses, visõesde-mundo, conhecimentos e técnicas.Mas, se foram fundamentais para a constituição biológica e para a formação estética e religiosa da sociedade brasileira, não é significativamente visível qualquer influência deles na dimensão urbanística e arquitetônica do país. Nos planos de nossas cidades, nos desenhos de seus bairros, na definição de um tipo de moradia.Günter Weimer acredita divisar tal influxo africano na configuração de Salvador.Acha que, enquanto “as ruas principais passaram pelo topo das colinas e eram reservadas aos senhores brancos”, as encostas da cidade se encheram de negros, que ali “puderam fazer efusiva aplicação do traçado das cidades africanas”. A tese não se sustenta. Os negros não ficaram concentrados nas encostas do sítio urbano. Distribuíram-se por toda a cidade.Pelos vales e pelas colinas, inclusive. E, nas encostas que desciam para o mar, viviam, também, pessoas de posses.Nos calundus dos séculos XVII e XVIII, temos um culto de origem africana – embora já sincretizado com elementos lusos e indígenas. Mas, no espaço físico em que o culto se realizava, não encontramos a forma de um templo que nos leve a criações arquitetônicas da África Negra. O que se vê é a “casa brasileira”. Tome-se o exemplo do calundu encontrado em Porto Seguro, em 1646. O rito acontecia à noite, na casa de Domingos Umbata. E nada indica que a casa tivesse qualquer traço físico incomum.Que a linguagem de sua edificação a distinguisse na paisagem arquitetural da vila. E o mesmo se pode dizer dos calundus de Branca, que a Inquisição flagrou na Vila do Rio Real, na Bahia, e de Luzia Pinta, que funcionava em Sabará, Minas Gerais, no século XVIII.O calundu acontecia numa casa corriqueira de feição popular. O que havia de africano não estava em sua construção, mas no ritual. Não se manifestava na materialidade arquitetônica, mas em dimensão simbólica. E isto vale para os terreiros de candomblé. Muniz Sodré acha que muito da organização dos palácios iorubanos foi incorporada na constituição do Axé do Opô Afonjá. Simbólica e ideologicamente, sim. Arquitetonicamente, não.Não há qualquer africanidade nítida, mas explícito lusitanismo tropicalizado, na casa de Xangô que sedia o terreiro. Basta comparar aquela casa com o santuário de Oxum, em Oxogbô. Umaltar em meio às árvores, uma forma orgânica que nada tem de parecido a uma casa portuguesa, sugerindo, antes, o sexo feminino. Um templovulva.E há um “detalhe”. Renato da Silveira chamou minha atenção. A Constituição Política do Império do Brasil, jurada em 1824, reza: “A Religião Católica Apostólica Romana continuará a ser a Religião do Império. Todas as outras Religiões serão permitidas com seu culto doméstico, ou particular, em casas para isso determinadas, sem forma alguma exterior de Templo”. Temos aí uma permissão e uma proibição. A permissão se dá na dimensão simbólico-ideológica: permite-se a existência de religiões que não a católica.A proibição incide sobre a expressão física dessas religiões, em termos de seus locais de encontro e rito. Não se pode ter forma alguma exterior de templo. É uma proibição arquitetônica.Os quilombos poderiam ter sido o espaço para a materialização de um urbanismo e de uma arquitetura de extração africana. Mas os arraiais de Palmares foram lusitanos. Os maiores chegaram a ter até quatro ruas, com as casas, cobertas de palma, alinhando-se lado a lado.No largo principal, no centro do povoado, ficavam os prédios do poder. A sede política do mandachuva local e a capela ou igreja. Sim: igreja, com imagens do Menino Jesus, de Nossa Senhora da Conceição e São Brás. No filme Quilombo, de Cacá Diegues, os palmarinos cultuam orixás. Não faz sentido. Os orixás são uma criação iorubana. E, na época de Palmares, ainda não havia iorubás por aqui. Eles só começaram a chegar depois, lá pelo final do século XVIII. Antes disso, a religião católica já se achava implantada em Angola, terra de origem dos negros de Palmares.
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